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Meninos de Rua

“Menino de Rua, parceiro da lua, sua mãe é uma estrela, a que mais brilha e que lhe diz boa-noite quando o sol se vai. Seu sonho, menino, tingido de negro, insiste em ser seu grande segredo. Não desiste dele, você pode tê-lo”. Tere Penhabe (fonte: internet) O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), ostentando o título de ser uma das leis mais avançadas do mundo, comemorou no último dia 13 de julho, dezessete anos de sua aprovação. Dezessete anos!...Por um instante, um turbilhão de questionamentos aflora à minha mente, e, eu penso nos milhões de brasileirinhos que juntos com o estatuto estão completando a mesma idade, por conseguinte, ainda amparados por essa norma, tão espetacular, que estabelece os direitos das meninas e meninos à vida, à saúde, à educação, à família e à proteção. Detenho-me, então, na parcela desses jovens “assistidos”, mas que completaram seus 17 anos vagando pelas ruas de nossas metrópoles, porque em algum momento de suas vidas foram expulsos de suas casas em razão da miséria ou da violência doméstica. Eles vivem expostos a riscos de acidentes, de violência e de abuso. São menores tanto quanto aqueles, da mesma faixa etária, nascidos em casas organizadas e no seio de famílias bem estruturadas. A lei não tem como distingui-los, mas a depender de sua capacidade de sobrevivência, aos dezessete anos serão rotulados, por essa comunidade que mal os tolera, como marginais, pivetes, trombadinhas, flanelinhas, meninos de rua, crianças carentes, monstros, ou, ainda, outros adjetivos que a dureza do coração estigmatiza, coroando as dificuldades e os desacertos dessa sociedade impotente para lidar com o drama dos jovens que vivem nas ruas e reconhece-los apenas como pessoas.Seja qual for o currículo desses jovens, aos 17 anos de idade ainda são menores e, portanto, têm direito à proteção do ECA. É nessa idade que eles percebem muito mais o preconceito legado das ruas, visto que se tornando mais evidentes as transformações dos seus corpos, o amadurecimento do seu timbre de voz e as alterações de humor e comportamento, essas mudanças agravam a condição de exclusão social em que vivem, fazendo-os experimentar, de forma mais aguçada, o mais degradante dos sentimentos: a rejeição.È nesse período que são mais uma vez abandonados, porquanto, nos semáforos os vidros dos carros que antes se abriam e estimulavam suas presenças nas ruas agora permanecem fechados; nas portas dos mercados não sensibilizam, como antes, os “homens de boa vontade” que garantiam os alimentos de suas cestas básicas; as suas mãos estendidas nas calçadas (preferencialmente nas portas de templos) têm dificuldades de recolherem mais moedas e trocados, suas acrobacias nos sinais perderam todo e qualquer encanto e, os olhares dos transeuntes, antes compassivos, agora revelam medo e total desconfiança. A comunidade se distancia desses menores quando na aparência e nos atos eles deixam de ser crianças e, sem qualquer aviso prévio, ela pára de garantir a sobrevivência deles que, sem oportunidades, se mantêm carentes de alimentos, colo, conhecimentos, e valores éticos. Sem guias, soltos nas ruas, não tiveram modelos para aprenderem as noções de certo e de errado, cultivarem bons hábitos, desenvolverem habilidades, conhecerem crenças e valores que agora lhes são exigidos. A rua nada ensinou a eles que fosse útil para crescerem e saberem lidar com o mundo e consigo mesmo. Os que lhes deram esmolas se foram, passaram. Agora a rotina de “nãos” faz com que compreendam que as ruas não os libertaram da violência, da miséria, nem, sequer, das pressões morais. Distantes das famílias e dos livros esses jovens ficam cada vez mais próximos do crime, cada vez mais sujeitos a contraírem doenças graves, cada vez mais despreparados para se tornarem adultos e cidadãos.E é cruel que essas coisas aconteçam na fase da adolescência. Assim, aos 17 anos já agregam os danos dessa morada que destrói o senso de amor próprio e a perspectiva de uma vida com mais qualidade. Mais um ano e eles atingirão a maioridade. Senhores de direitos e obrigações, conforme preceitua a lei vigente, passarão a ser imputáveis. Então, eu ouso perguntar. Como será? Os que deram esmolas já passaram...

Em 17 de julho de 2007
CaL.Tânia Regina de Azevedo Teixeira
taniareginateixeira@oi.com.br

 

 
 
 
 
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